No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.

João 1:1-4

O povo de Deus como agente de transformação no A.T.

padraoUma das primeiras doutrinas do Antigo Testamento sobre a dignidade humana é a doutrina da “imago Dei”, imagem de Deus. O ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26). Esta doutrina, aliada à doutrina da igualdade e da liberdade, seria suficiente para indicar a dignidade e o respeito que o ser humano merece. O ser humano foi uma criação imediata de Deus, feito por suas próprias mãos, com carinho, respeito, amor e para sua glória. Isaías 49:15 e Mateus 6:25-34 relatam o amor e o cuidado de Deus para com seus filhos, criados à sua imagem e semelhança.

Baseados neste fundamento, princípios e padrões são estabelecidos por meio da Bíblia a fim de que o ser humano, especialmente os pobres, ou os menos favorecidos, não se tornem presas nas mãos de poderosos que pleiteiam uma posição de divindade, colocando-se muitas vezes no lugar de Deus. Esta tem sido uma tendência natural, originada na queda, quando o primeiro casal cedeu à tentação do “sereis semelhante a Deus” (Gn. 3:5,6). Com essa índole, a história relata um número incontável de “semideuses” que oprimem e exploram os seus semelhantes a fim de obterem benefício próprio.

Dentro dessa linha da dignidade humana e do cuidado de Deus, a nação israelita foi constituída com a responsabilidade de desenvolver uma missão humanitária global, como está relatado: “Vós me sereis reino sacerdotal e nação santa” (Ex. 19:6). A nação iniciou a sua trajetória a partir da sua libertação da escravatura e foi constituída como uma nação abençoadora e libertadora. As afirmações: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn. 12:2), “Vos me sereis nação sacerdotal” (Ex. 19:6) e “eu te dei como luz para as nações” (Is. 42:6), indicam claramente a vocação da nação hebreia.

Os hebreus não foram escolhidos por méritos pessoais. Suas raízes estão em Abraão, que vinha de uma família idólatra. Entretanto, Deus os escolheu e os comissionou como um instrumento de bênção para todas as nações. Dentro do processo da revelação gradativa no Antigo Testamento, as outras nações chegariam ao conhecimento de Deus por meio de Israel. A meta não seria apenas a nação judaica, seriam todos os denominados gentios, à luz dos seguintes textos: Gn. 12:2; Sl. 22:28; Mq. 4:1-4; Rm. 11:11; Gl. 1:16; 3:14; Ef. 3:6; Cl. 1:27.

Na perspectiva divina, todos os aspectos da nação judaica, e não somente sua espiritualidade, seriam modelos do projeto de Deus para toda a humanidade, de sorte que, neste modelo, se contemplavam aspectos relacionados com justiça, pobreza, trabalho escravo, viúvas, órfãos, idosos e até mesmo com o cuidado da terra. Todas essas leis foram estabelecidas para protegerem os menos favorecidos da índole dominante e exploradora dos poderosos que, em toda a história humana, sempre procuraram usurpar o direito dos pobres.

Conforme Deuteronômio 15:1-10, Deus deixou estabelecido que ao final de cada grupo de sete anos deveria haver o ano da remissão, quando, dentro dos limites de Israel, todas as dívidas seriam perdoadas. O objetivo do perdão das dívidas está assim apregoado: “Para que em teu meio não haja pobres” (v.4). Na continuação da perícope (v.7), Deus ensina os mais abastados a compartilharem com os pobres e necessitados. É interessante destacar o v. 11, onde se lê o seguinte: “[…] nunca deixará de existir pobre sobre a terra”, até porque os motivos da pobreza são vários; entretanto, a comunidade judaica tinha a obrigação de cuidar desses pobres, independentemente das causas de sua pobreza.

A escravatura era permitida, não no sentido de exploração, mas no sentido de se reaver certas dívidas. O Comentário Bíblico Moody afirma que os textos bíblicos referentes aos escravos hebreus se referem a um serviço voluntário, dentro do razoável, ou seja, um serviço que não se assemelhava aos tipos de escravatura que normalmente se conhece (Pfeiffer, 1993, p. 181).

Russel N. Champlin (2001, p. 816) afirma que a prática da escravatura não era proibida, mas era regulamentada mediante certos princípios humanitários. De toda maneira, mesmo dentro das fronteiras de Israel, a pobreza terminava produzindo escravos. O sistema de escravatura também não deixava de ser um meio para ajudar, reabilitar e orientar pessoas que estavam totalmente desamparadas. Porém, ainda assim, no ano sabático, todos os escravos deveriam ser alforriados e não poderiam sair com as mãos vazias (Dt. 15:12-18).

As viúvas, os órfãos e a justiça social foram motivos de vários debates entre profetas, juízes e governadores. A denúncia profética ocupava centralidade na pregação. Eles representavam um tipo de Ministério Público, no que diz respeito à denúncia da corrupção e das injustiças 30 sociais, além da sua missão de anunciar o que Deus lhes revelava sobre o passado, o presente e o futuro da nação.

A denúncia profética, mesmo atingindo todas as dimensões da existência humana, estava bem mais focada em denunciar os pecados da corte, a violação dos direitos dos órfãos e das viúvas, as injustiças sociais e as questões relacionadas com os deveres, direitos e justiça. Todos possuem direitos e deveres. A justiça, porém, delimita onde terminam os direitos e começam os deveres do indivíduo. A justiça, na denúncia profética, era um elemento regulamentador que transitava entre liberdade, igualdade, direitos e deveres. Assim, é possível comprovar como as escrituras, no Antigo Testamento, abordam o problema da opressão, da exploração e da injustiça. Demonstrando que Israel além de ser o modelo de espiritualidade seria também o agente transformador.

Porque assim dizem as escrituras: O Senhor é um alto refúgio para o oprimido (Sl. 9:9); o homem pobre que oprime aos pobres é como chuva impetuosa que não deixa nenhum trigo (Pv. 28:3); praticai o que é reto, ajudai o oprimido (Is. 1:17); não explores o pobre porque é pobre, nem oprimas ao aflito em juízo, pois o Senhor defenderá a sua causa em juízo, aos que os exploram lhes tirará a vida (Pv. 22:22,23); os seus chefes dão as sentenças por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro (Mq. 3:11); corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene (Am. 5:24); é este o jejum que escolhi, que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desterrados? E, vendo o nu, o cubras, e não te escondas do teu próximo. E se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita, então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio dia (Is. 58:6,7,10).


padrao

Trecho do Livro:
Perspectivas de uma Igreja de alto impacto: perspectivas bíblica, teológica e pós-moderna.

Autor:
Expedito Ferreira de Melo
Direitos autorais reservados ao autor.


 

Bibliografia

A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento (tradução de João Ferreira de Almeida) 2a edição revista e atualizada São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

PFEIFFER, C. (1993). Comentário Bíblico Moody. Grand Rapids: Portavoz, Grand Rapids Michigan.

CHAMPLIN, R.N.& Bentes, J.M. (2001). O Antigo Testamento interpretado. (2ª ed.), Rio de Janeiro: CPAD.

Receba Nossas Novidades